Transporte de carga: quanto custa eletrificar a frota?

Quinto encontro da e-FAST Brasil reuniu em São Paulo setor privado, governo e especialistas para discutir custo total de propriedade, operação, infraestrutura de recarga e modelos de negócio para a eletrificação.

blank

Imagem por Roosevelt Cássio/WRI Brasil

A eletrificação do transporte de carga é uma oportunidade de conciliar a transição energética com promoção de eficiência logística, competitividade industrial e qualidade de vida. Mas o custo dessa transição ainda é percebido como uma barreira. O WRI Brasil convidou representantes do governo, da indústria, de empresas e especialistas, para discutir: afinal, quanto custa eletrificar a frota?

A pergunta orientou o quinto encontro presencial da e-FAST Brasil. Realizado em parceria com o Fórum ILOS, o evento reuniu cerca de 50 participantes para discutir as principais variáveis que determinam a viabilidade econômica da eletrificação do transporte de carga: aquisição dos veículos, operação, manutenção, infraestrutura de recarga, financiamento e vida útil das baterias.

Na abertura, Luis Antonio Lindau, diretor do programa de Cidades do WRI Brasil, recordou o peso do setor de transporte nas emissões brasileiras: o terceiro maior emissor do país, atrás apenas de desmatamento e pecuária. De acordo com Lindau, é nas operações urbanas que a eletrificação encontra o caminho mais próximo da viabilidade.

Para Maria Fernanda Hijjar, sócia-executiva no ILOS, a transição só avança se estiver associada à viabilidade econômica das operações. “O tema descarbonização entrou na agenda, mas ele precisa se pagar. A logística continua sendo um custo, e um custo alto”, disse.

George Yun, coordenador-geral de Projetos Especiais e Mudança do Clima no Ministério dos Transportes, apontou o custo total de propriedade, incluindo manutenção e descarte das baterias, como uma das principais barreiras à eletrificação, e resumiu o papel que cabe ao poder público: “Primeiro não [dificultar], depois aprender e depois ajudar para construirmos juntos este caminho”, disse.

O Brasil tem a meta de reduzir 53% das emissões até 2030 e atingir a neutralidade climática em 2050. Maurício Guerra, diretor de Meio Ambiente Urbano no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima,  destacou que o transporte tem um papel importante na mitigaçao climática: “A maior força que temos é a redução do uso do solo para desmatamento, sem dúvida, mas não será suficiente.” Guerra também apontou as Diretrizes para Descarbonizar o Transporte Urbano de Carga, estudo conduzido em parceria com o WRI Brasil, como referência para compreender a dinâmica do setor no país e no mundo.

blank

Mariana Barcelos apresentouRoteiro para Eletrificação do Transporte de Carga (Foto: Roosevelt Cássio/WRI Brasil)

Operação, infraestrutura e demanda são parte da conta

Na mesa “Afinal, quanto custa eletrificar a frota?”, a discussão mostrou que o custo do veículo é apenas uma das variáveis da equação.

A discussão foi organizada em torno das variáveis que compõem o custo da eletrificação: frota, operação, manutenção, infraestrutura de recarga e financiamento. “A viabilidade financeira precisa acontecer para todo esse ecossistema para que a gente consiga alcançar os benefícios coletivos, que é a eletrificação das frotas”, enfatizou Mariana Barcelos, coordenadora de Descarbonização do Transporte do WRI Brasil, que moderou o painel.

Os destaques foram os três pilares de atuação da e-FAST Brasil – colaboração, pilotos e políticas públicas –, e o andamento do Roteiro para Eletrificação do Transporte de Carga, com foco aos capítulos sobre modelos de negócio e indicadores de monitoramento, que incluem a ferramenta de TCO em desenvolvimento pela e-FAST Brasil. Segundo o diagnóstico já mapeado pela plataforma junto aos parceiros, foram identificadas mais de 35 políticas públicas nacionais, mais de 15 políticas locais e 9 em desenvolvimento, além de mais de 25 linhas de crédito, 5 garantias e 5 modalidades de equityvoltadas à eletrificação.

Segundo Priscila Rocha, head de Sustentabilidade e ESG da Volkswagen Caminhões e Ônibus, a bateria segue como o maior componente de custo, mas já caiu mais de 1.000% em dez anos. “O custo de manutenção de um veículo elétrico é muito inferior ao de um diesel”, afirmou, citando também novos modelos de negócios como o modelo de e-mobility as a service: “Hoje já temos e-mobility as a service: você não compra o caminhão, você compra quilômetros rodados por meio de um caminhão elétrico, por exemplo.”

Para Matheus Costa, coordenador de Contas Estratégicas da WEG, a estratégia de recarga precisa estar diretamente conectada à operação, considerando janelas disponíveis e potência necessária. Como exemplo, citou garagens em São Paulo que operam 150 ônibus elétricos com apenas 16 carregadores, graças à recarga distribuída ao longo do dia e da noite. “Quando você otimiza a sua logística de carregamento, você consegue ter melhores resultados”, frisou.

Já para Gilberto Prado, líder no Brasil da Smart Freight Centre, o veículo elétrico é mais sensível à operação do que um veículo a combustão, o que exige alto grau de utilização para viabilizar o investimento. Para ilustrar como a demanda agregada reduz custos, citou a experiência norte-americana: “Unimos cerca de 15 embarcadores e transportadores com intenção concreta de compra e definimos, em conjunto, uma expectativa de compra de até 10 mil caminhões elétricos. Os primeiros 2.500 já estão em processo no mercado.” Prado também apontou que a vida útil de veículos elétricos tem se mostrado maior do que a esperada, citando exemplo de ônibus elétricos em Londres que deveriam durar 14 anos e vêm demonstrando condições de operar por ciclos de até 21 anos.

Antes do veículo, é preciso entender a operação

No painel Como saber se a “conta fecha”?, Daniel Schmitz, diretor executivo da Lùth-e, apresentou o método por trás da análise de viabilidade. Para ele, o ponto de partida não deveria ser a escolha do veículo, mas o diagnóstico completo da operação: quilometragem, perfil de condução, janelas de parada, rotas, tipo de carga e consumo, sempre dimensionados pelo dia crítico, e não pela média. Segundo Schmitz, operações urbanas e de última milha tendem a fechar a conta com mais facilidade, por terem menor diferença de preço em relação ao equivalente a diesel e permitirem recarga em corrente alternada. Já o transporte regional e de transferência depende mais de rotas recorrentes e previsíveis, recarga em clientes-chave e hubs de recarga ao longo do trajeto. Sobre o dimensionamento de carregadores, resumiu: “O número mínimo de carregadores tem que dar conta do pico, com alguma folga.”

O especialista reforçou a importância de monitorar continuamente a operação, através de indicadores como consumo por quilômetro, disponibilidade e taxa de utilização dos carregadores, estado da bateria, satisfação de motoristas e clientes, para corrigir rota quando necessário e, inclusive, rever o modelo de negócio.

Segundo Schmitz, a conta tende a fechar quando a operação foi diagnosticada pelo dia crítico, o veículo foi escolhido a partir dos requisitos reais da rota, o número e o tipo de carregadores vieram de simulações, a conexão com a rede foi negociada antes da compra, e os indicadores são monitorados de forma contínua. “Não existe uma resposta única, existe método”, concluiu.

Ferramenta de TCO: da metodologia à prática

À tarde, em atividade exclusiva a parceiros da e-FAST Brasil, George Goes, diretor de Operações da Lùth-e, conduziu a apresentação da ferramenta de TCO, desenvolvida pela plataforma, e exercícios práticos com os 35 participantes.

Danielle Rocha, dos Correios, compartilhou os resultados do piloto da empresa com a ferramenta, comparando veículos a combustão e elétricos: “Para nossa surpresa, está [levando] de 6 a 7 anos para os veículos elétricos começarem a se pagar. Antes do previsto. Está sendo super positivo.” Segundo ela, a manutenção dos veículos elétricos tem se mostrado excelente, e quanto mais o veículo roda, mais rápido o investimento se paga: “Temos um veículo elétrico com quase 15 anos, e ele está rodando sem precisar trocar a bateria. Talvez a gente troque a carcaça do veículo, mas não a bateria”, destacou.

A experiência dos Correios reforçou um dos pontos que atravessaram toda a programação: a eletrificação não depende apenas do preço de aquisição do veículo, mas da combinação entre operação, infraestrutura, energia, manutenção, financiamento, vida útil e modelo de negócio – decisões que só fazem sentido quando apoiadas em dados reais da operação.

blank

Articulação de atores é uma das potências da plataforma (Foto: Roosevelt Cássio/WRI Brasil)

Construção conjunta

Um ano após sua criação, a e-FAST Brasil segue fomentando a construção conjunta de soluções para acelerar a eletrificação do transporte de carga. Essa orquestração de governos, setor privado e sociedade civil é pilar de atuação do WRI Brasil, coordenador da plataforma.

“A e-FAST Brasil reúne atores de diversos setores: transportadores, embarcadores, fabricantes de veículos, infraestrutura de recarga, energia, instituições de financiamento e governo para que, tanto setor privado, quanto setor público, contribuam para a formação de um ambiente mais favorável e vantajoso ao investimento na eletrificação”, destacou Mariana Barcelos. “É pela viabilidade financeira que chegaremos ao ganho de escala da adoção de novas tecnologias e alcançaremos o nosso objetivo: redução de emissões de gases de efeito estufa, redução de poluição atmosférica nas cidades, melhoria da qualidade de vida para as pessoas e redução de ruídos nas nossas ruas”, sintetizou.

Sobre a e-FAST Brasil

A primeira plataforma brasileira dedicada a acelerar a descarbonização do transporte de carga segue em crescimento, com mais de 50 empresas e organizações parceiras já registradas. Para saber mais e fazer parte, acesseefastbrasil.org ou escreva paraefastbrasil@wri.org.

Artigo publicado originalmente por WRI Brasil.